Vai-te embora mês de Agosto.

09 agosto, 2012

Não, fica. Vai-te embora. Eu amo-te.
Cala-te. Abraça-me. Não, descola. Volta. Espera.
O que raio tem este mês de Agosto? Um sabor de domingo talvez. Não quero que comece, não quero que acabe.
Depois deste mês, o que raio vou fazer à minha vida? Onde é que vou viver, quem vou conhecer? Mas que merda é que Lisboa tem à minha espera? E o ano de finalista? E que raio de finalista sou eu? E que raio de coisas são estas, que raio de sentimentos são estes?
E que pessoas que são estas que dançam à minha volta?
Hoje contei à Laurie que a Sylvia Plath no fim da vida, meteu a cabeça no forno e foi desta para melhor. E ela logo: Porque é que alguém faria isso?
E eu: Porque é alguém NÃO faria isso?
E a verdade é: Quem é que não metia a cabeça no forno com uma vida destas? E porque sou o único a fazer estas perguntas? Porque é que sou o único a sentir isto?
Em conversa com uma amiga, admiti em voz alta uma ideia que guardo há que tempos em segredo. Tenho um problema químico. Uma desordem. Uma deficiência. Talvez me dessem choques eléctricos nos anos 50. Mas a verdade é que ser feliz não pode ser assim tão difícil. E ter a certeza de quem somos, ter a certeza do que somos, não pode ser assim tão difícil. Ter coragem para ser quem somos...não pode ser assim tão difícil. Não é o standard de todas as pessoas estar mais ou menos bem? Estar mais ou menos feliz, mais ou menos, mais ou menos. Porque é a minha resposta é sempre menos ou ainda menos?
Desequilíbrio profundo que se acentua com a solidão, talvez seja essa o meu diagnóstico. Se calhar desisti de ser saudável. Porque é que temos todos que ser saudáveis, porque é que temos que ser todos bonitos? Mas que merda é essa? Que imposição é essa? Mas do que raio serve este sofrimento contínuo duma socialização que muda a cada moda de valores? As tradições, os valores, as opiniões...todas modas. Modas e modas que chegam e vão...


Porque é que alguém não poria a cabeça no forno? 

20 anos e a vida de hoje

20 julho, 2012

20 anos e a mesma porra de vida. 20 anos e a merda da mesma angústia, a mesma dificuldade em respirar. 20 anos e a porra das gotas de suor em todo o corpo, um calor que invade a alma e os sentidos. Um calor de festivais. Um calor de duas mãos dadas enquanto os The Cure cantam. O calor da minha cabeça e da tua  juntas. O calor da nossa intimidade. 20 anos e a porra da minha primeira exibição pública de afecto.
20 anos e a porra dum bolo de chocolate, um cigarro a fazer de vela. Um sorriso a fazer de roupa. 20 anos e a percepção das verdadeiras amizades (...)

O meu pai vive cada vez mais num mundo só dele. Num mundo difícil, complicado, num mundo onde só o trabalho, o cansaço, a ilha aos fins-de-semana e a comida de gatos do Aldi. Um mundo onde eu sou apenas sinónimo de mais problemas. Um mundo onde elogios não existem e incentivos são palavras que me ferem o coração. Um mundo onde ele fala e eu calo-me. Um mundo onde eu falo e ele foge para longe. Um mundo onde ele não percebe a minha angústia de existir assim, preso num quarto que não é o meu, preso num quarto porque há baratas por todo o lado e e não consigo sair enfrentar os meus medos. Preso nesta existência sem sentido, a definhar cada vez mais o coração e a alma.

A minha mãe cada vez mais enterrada num poço de insanidade. Numa insanidade de espíritos, maldições, más energias. Num mundo de bruxas nada mágico, num mundo onde todos nos querem mal, num mundo onde o perigo é constante. Um mundo solitário onde ela não me pode ver, onde o meu cabelo está demasiado claro (para a minha mãe e para o meu pai o meu cabelo está sempre mal: se está curto, está demasiado curto. se está comprido, está demasiado comprido). Um mundo tão longe do meu, um mundo que do qual eu nunca fiz parte sequer. Quem és tu mãe? Será que alguém sabe dizer? Enquanto o teu corpo e a tua mente definham, mais um bocadinho todos os dias, eu morro lentamente ao sabor das flutuação das tuas emoções, das tuas loucuras...

E eu aqui no meu mundo tão sozinho. Talvez a culpa seja minha. Talvez viver seja o problema 1. Talvez tudo isto, talvez todos estes anos não sejam culpa de ninguém...sejam consequência da minha inacreditável incapacidade de viver neste mundo. Ou pelo menos de viver neste Portugal.

O meu pai chama-me snobe. Chama-me snobe porque eu defendo a ideia de que devemos ter um inglês perto do perfeito e um sotaque pelo menos americano, pelo menos fiel a qualquer coisa, ao invés do exemplo tosco de Mourinho ou Cristiano Ronaldo. Sou snobe porque defendo que aprender uma língua é aprender completamente os sons, os ditongos, saber reproduzir como uma pessoa que lá viveu a vida toda. Sou snobe. Talvez o que o meu pai não perceba é que eu não quero nunca parecer português. Que quero ir embora, deixar os amigos, a família, as cicatrizes e viver num mundo que não se acaba depois das nove da noite, que não se acaba com o cair do Inverno. Quero viver num mundo de beleza, ora bolas. Quero ter a oportunidade de ver quadros e decidir nunca os visitar. Quero ter a oportunidade de ouvir as mais inteligentes mentes do mundo, sem me mexer da minha cama. Sou um snobe. Talvez seja. Mas o que o meu pai não compreende é que ser snobe é a única coisa que me prende a esta vida. A ideia de que em algum lado, longe deste país infernal há qualquer coisa de diferente para viver. Onde ter 80 quilos não é ser obeso e onde gostar de ler livros não é raro mas frequente. Onde eu posso verdadeiramente encontrar um amor (20 anos, a maior parte da porra dos meus amigos em relações ou perto disso e eu solteiro eternamente). Onde há qualquer coisa que me faça levantar da cama. Talvez um sítio onde não me lembre do suicídio a cada aperto do coração.

Cada vez menos sem certezas de nada, sem saber responder à pergunta "E agora?". As portas só se fecham (a M80 mandou-me ir dar uma voltinha e nem me escolheu para entrevista para o estágio, a empresa de Marketing depois dum interesse inicial nunca mais me disse nada.) e nada parece se abrir (num horizonte longínquo há um projecto com a Maria mas...)

Outra vez sentado no jardim entre o dia e a noite.


A interminável viagem de volta

08 julho, 2012

E de repente, cá estou eu. A falar português, a mandar mensagens, a usar o telemóvel sem me preocupar com a conta, a beber cafés, a andar na baixa, a encontrar os meus amigos. Aqui estou, aqui estou eu, aqui estou eu.
Afinal, sobrevivi. E afinal, foi bom.
Mas ainda não cheguei definitivamente a Lisboa. Nem ao Algarve. Não sei se me perdi em Milão, no comboio da meia noite para Paris, se no TGV para Irun (ou aí mesmo a conversar com a professora americana), talvez em Madrid e e nas casas de banho as quais eu nunca mais voltarei, talvez por aí. Tive a sorte de não perder nada e o azar de me perder a mim mesmo como quem deixa um livro no banco do autocarro.
Não sei o que é a vida depois de Erasmus. Não me façam perguntas sobre o voltar. Sinto-me diferente, sinto-me mais velho, mais cansado, mas ainda não sei o que significa voltar de erasmus. E cada vez que penso em Milão...é uma dor no peito que não se acaba!
E mais palavras não tenho. Parece que deixei de ter coisas a dizer sobre este ano da minha vida. Um ano...completamente inesquecível.

A.L / D.L

26 junho, 2012

Londres. Londres, Londres. A palavra forma-se na minha boca como um beijo guardado que se solta com prazer. Londres. A vida antes de Londres e a vida depois de Londres. Há uma distinção a fazer. Foram 10 dias que nem tão cedo esquecerei.
Londres e a sua vida descontrolada, a sua gente descontrolada, o seu metro descontrolado. Londres e as lojas, Londres e os meus sapatos na Tower Bridge. Londres e por todo o lado satisfação. Londres e por o todo o lado Sonhos com "s" grande. Se o mundo acabasse amanhã, ia me perder pelas ruas de Londres e chorar um bocadinho no Hyde Park.
E mesmo ali tão perto de Londres, Cambridge. Um mundo que nunca pensei conhecer. Um mundo de festas de jardim em que se conhecem pessoas interessantes, um mundo de três copos de vinho e mais um só para a garrafa acabar. Um mundo de bailes de gala e de bebedeiras de pobre. Um mundo de livros e bicicletas, uma bolha única, um ambiente difícil de encontrar seja onde for. O mundo das "mentes mais brilhantes da Grã-Bretanha.
E Londres foi assim. Uma bênção. O descobrir de um sonho, o descobrir dum objectivo novo.
Um caminho a percorrer...

Inutilidades I

13 junho, 2012

Não há melhor snack para a madrugada que este: Coca-Cola de 55 cêntimos, sandes de dois euros da máquina da residência e um cigarro ou cinco. Estas noites já têm um prazo definido, mais dia menos dia, arrumam-se os tarecos e ciao ciao milano, e já sei que vou chorar. Mas enfim. Guardemos as angústias todas para outro dia. O sentir demais nunca ajudou ninguém que eu conheça.
Para me entreter, penso no futuro. Que presente envenenado! Não me consigo imaginar mais velho do que sou hoje. Tenho uma existência de borboleta, sem dúvida. Não fui feito para ter 50 anos. Não fui feito para não ser jovem, a vida já agonizante sendo jovem, não me cativa nada com os problemas da velhice. E dito isto, não me posso dar ao luxo de não fazer planos. Sair de Portugal? Ir viver para outro lado? Mas para onde, meu deus, para onde? O mundo parece-me um sítio demasiado grande, ainda por cima agora que conheci tanta gente. Sinto-me afogado no mundo. Mais ou menos aquele sentimento de quando se pensa no universo é de como é uma coisa infinita. De como o mundo inteiro é um pequeno pontinho insignificante. O que fazer, meu deus, o que fazer.
E enquanto isto tudo se passa, cada vez me desespero mais com este blogue, com a escrita, com associações, comparações, erros de gramática, sintaxe e o diabo a quatro. Enerva-me que não consiga escrever algo melhor, algo impressionante. Fluidez. Beleza. Onde estão?
O desespero de querer dizer algo interessante é dramático e indubitavelmente inútil.

Ryugyong

10 junho, 2012


Hoje no Público:

 "Ryugyong começou a ser construído em 1987 em Pyongyang com o objectivo de ser o maior hotel do mundo, imagem imponente do comunismo"
"Os problemas para o regime de Pyongyang continuaram, com especialistas a olharem para o hotel e a considerarem-no o mais feio do mundo. A revista Esquire designou-o como o “pior edifício da história da humanidade” , sendo também chamado de “Hotel Of Doom” (“Hotel da Ruína”)."
"Ryugyong tornou-se um símbolo do falhanço do país e do comunismo. Apesar do imponente edifício ser visto a quilómetros de distância, Pyongyang chegou, mesmo, a negar a sua existência, fazendo-o desaparecer das imagens oficiais da capital norte-coreana."

A verdade é que não há nada mais humano que isto. Construímos estes edifícios altos, cheios de expectativas. Acreditamos que estamos a fazer uma coisa boa, que todos possam ver, para que todos possam admirar. Mas, no fim, o tempo passa e aquilo que um dia sonhámos ser majestoso, acaba sendo uma ruína. Uma trágica e quase triste memória do que um dia sonhámos alcançar. Mesmo que esteja ali, cru e morto, ignoramos com os olhos e com a alma. Ninguém quer ver os próprios fracassos.

E depois vem a reconstrução. E voltamos a pegar na nossa ruína e fazer alguma coisa com ela.

O passado cura-se e cura-nos. E de edifício mais alto do mundo para edifício mais feio, de edifício mais feio para ruína e de ruína para símbolo da nossa resistência. Porque os sonhos reciclam-se.


To Build a Home

02 junho, 2012

As minhas entranhas sentem já as despedidas. A cada abraço estamos mais próximos do último. A cada exame, a cada gelado, a cada dia de sol. A aventura está na recta final. Já não há surpresas.
E eu não sei o que sentir. Não sei se há vida depois de Erasmus. Não sei quem sou eu depois de Erasmus.
E o tempo passa...