Antes que Outubro acabe, novidades.

29 outubro, 2011

E já estamos no fim de Outubro. Vivo em Milão há mais de um mês e as novidades ainda surgem todos os dias, as aventuras não se repetem e as conversas nunca são as mesmas. É um circo infinito e a surpreender a cada novo número, sou público e palhaço e por agora, está tudo bem.
Eu sinto-me em casa muito facilmente, é uma característica minha. Assim, enquanto estou aqui, na sala de Estudo da Residência, o sol triste de Milão cumprimenta os papéis espalhados das aulas de italiano em cima da mesa, é estranho pensar no antes. Estranho pensar em Sacavém, nos dias de calma no Escritório, nos dias de cigarros com a Joana Frederico, nos dias de chuva, nos dias de autocarros intermináveis. O que não significa que não tenha saudades.
Mas, parece-me que a minha vida neste momento tinha mesmo que ser aqui. Neste lugar, com estas pessoas, mesmo com estes problemas. Nem tudo é sempre bom.
Esta semana foi terrível. O empréstimo de estudante parece não chegar nunca, o pagamento da residência foi adiado até mais não e o meu pai lá conseguiu enviar-me os 300 euros no dia limite. Ainda não sei como vai ser, tendo em conta que já tinha recebido um papel, ainda não falei com ninguém. Pelo menos paguei pronto. Pode ser que corra tudo bem.
A seriedade das aulas finalmente apanhou-me. Falar em italiano não tem sido uma coisa fácil, todos os dias há uma evolução, uma nova palavra mas parece tão pouco, tão mísero. Ainda não consigo ter uma conversa normal em italiano embora normalmente perceba o que me querem dizer. Ando a falar quatro línguas ao mesmo tempo na maior parte das vezes. Italiano, Espanhol, Português e Inglês misturam-se na minha boca e na minha mente. Desconfio se continuar assim vou ficar sem saber falar de todo. Tenho paura (medo) dos exames, das aulas, dos testes, das coisas. Mas mesmo assim, sabe bem estar aqui. Sabe bem andar por estas ruas, sabe bem saber que estou em Itália.
Porque um dia, há pouco tempo atrás parece, tive 16 anos e queria morrer. Morrer porque a vida era sempre a mesma, as pessoas eram sempre as mesmas, as novidades eram sempre as mesmas. O meu quarto branco de 4 paredes parecia cair em cima de mim tal como todo o resto do mundo. Queria tanto viajar, queria tanto sair, queria tanto ver o mundo para além da minha casa, das minhas coisas. E valeu a pena ficar. Valeu a pena ficar para viver isto,ver isto, conhecer estas pessoas.
Pelo menos há isto, pelo menos ainda há este prazer de viver e sinto-me abençoado. O resto correrá como tem que correr. Só posso esperar que bem. Os problemas que aparecerem enfrento-os, penso em alternativas, opto por caminhos, discuto com alguém, pelo ajuda. O desespero já não conhece o meu nome, pelo menos na maior parte das vezes.
Entretanto, noutros níveis a vida deu uma volta engraçada. Não é amor, nem tem nada a ver com sentimentos, é uma outra coisa que tem sido um peso no meu coração e na minha vida há tantos anos que por agora, não quero falar. Tornou-se uma nova obsessão, não é saudável, não me está a fazer muito bem, mas também me sinto feliz por isso. Saber que consigo. Saber que poderei a vir impressionar aqueles que sempre tinham achado que eu ficaria o mesmo...Mais sobre isto noutro dia, tenho que ir estudar italiano, tenho que fazer isto e aquilo e não me apetece falar mais. Hoje há Teatro, Feira e Crepes com os franceses ( o casal mais cinema francês que eu já vi ). Hoje há vida. E agradeço por isso.

Milano Sonhando

14 outubro, 2011

Os últimos dias, ou melhor, desde que estou aqui, parece que me cerca este véu de absurdo, de sonho, de mágico. Nada é realmente importante, nada é realmente sério. Os dias correm uns atrás dos outros, depressa. Cada um, trás no seio um sonho novo, uma aventura nova, um novo vício. É difícil recordar Lisboa, quando mais o Algarve. Dizer que a minha vida mudou outra vez é um understatement. Dei tantas voltas que o mais certo é a acabar a vomitar numa esquina qualquer.

Mas, realmente falta qualquer coisa. Para além de dinheiro, como é óbvio. Faltam-me os meus amigos, os lugares que conheço, a sensação de estar em casa. Sempre, mais ou menos a esta hora da noite, surge-me no coração a lembrança, a saudade, a vontade de os voltar a ver a todos. Começámos mesmo agora a seguir caminhos diferentes, nem foi há um mês e já noto as pequenas diferenças, as piadas que eu não conheço, as aventuras que eu não participei.

O mundo avançou. Outra vez. Tal como tinha avançado há um ano atrás. Tal como tinha sido. O sentimento porém, não é o mesmo. Pelo menos, agora que escrevo isto me apercebo que não é o mesmo. Definitivamente, no ano passado as coisas eram diferentes porque eu sentia mágoa, solidão, talvez até raiva de quem eu sentia que me tinha abandonado. Agora, é mais o doce sabor da memória, do bom tempo passado. Porque houve momentos bons. Houve sim senhor.

Tudo preparação para Milão, acho eu. Era impossível estar aqui como estou hoje sem as aulas de espanhol, sem a Ruta Ibérica (porque a maior parte dos meus conhecidos é espanhol), era impossível estar aqui hoje sem Lisboa e a prática de sair à noite, beber, conviver. Era impossível estar aqui hoje sem aqueles brutos anos de secundário, de 3º ciclo de escrever com x's e com z's. Tudo o que fiz até agora levou-me aqui. E isso era um sentimento que também sentia em Lisboa.

Toda esta promessa da vida a ser cumprida, todas estas aventuras fantásticas, finalmente a acontecerem quase que me sabe a sorte a mais. Quase que tenho medo, quase que me assusto com a possibilidade de estes serem de facto os melhores anos da minha vida. Não. Digam-me que há mais para viver. Há com certeza mais Itália, isso é um facto. E mais outros tantos locais mágicos que quero conhecer. Há ainda o sonho de Nova Iorque, cada vez mais fundo, cada vez mais instável porque agora que peguei nas rédeas do sonho é que vejo o quão difícil será. 

E quero continuar a viver. Preciso de desesperadamente acreditar que vou continuar a viver. Mesmo que em Lisboa, mesmo que sem Nova Iorque, mesmo que sem livro. Aventuras. Vida, novas pessoas. Será isto a maldição erasmus? O pavor de ficar demasiado tempo num sítio? É uma vida de conquista e de perda. Todos os anos a cultivar um coração, todos os anos a abandoná-lo. Será que me habituava? A ter o coração cheio de saudades a todo o momento, a pensar neste ou naquele sítio com aquela ou outra pessoa? A ter flashbacks do passado, como numa série teen? 

Sim. Sim, isso implicar ao menos ter histórias para contar, histórias para viver, sítios para conhecer. Coisas que encontrar. Pessoas. Amigos novos. Escrevinhar novos romances na minha cabeça, pensar em novos e melhores sonhos. Mesmo que isso implique aquela lágrima que insiste em saltar dos meus olhos, quando vejo aquela foto. Mesmo que isso implique esta dor no coração de ver um amigo triste e não poder estar lá.

Ontem, andava a ler o meu nanowrimo. Assim pela madrugada fora, como estou hoje. E ao ler aquelas linhas, lembrei-me de tanta coisa. Tinha esquecido de tanto, sinceramente. Dos primeiros tempos bons da casa, da Joana na casa, das nossas conversas. Porra. Evolução. Muita evolução.

Crescer. É assustador o que um ano e um bilhete de avião fazem a uma pessoa. E agora, Novembro surge outra vez e numa maneira, estou no mesmo ponto que estava. Estou num novo sítio, a conhecer pessoas, a falar com gente, a viver os primeiros tempos de casa, de faculdade, de experiências. Estou a aprender uma linguagem nova. Mas a viver isso em certa forma duma maneira diferente. Porque já vivi. Tenho calos de aprender certas coisas. Não é na realidade uma segunda oportunidade de refazer o passado. O passado, passado está (perdoem-me a redundância) e não estão aqui as pessoas que estavam em Sacavém. Não está aqui o Kiwi, não está aqui o que era nosso. É só uma segunda experiência.

Ainda não sei para onde vou e isso é certo. Lembro-me de por estar altura estar tão confiante com algumas coisas que caíram logo depois de Novembro, do Natal e da distância. Lembro de como Fevereiro mudou a minha vida. De como daí até ao Verão é que realmente já tinha qualquer coisa de diferente. Por isso, por um lado ler o nanowrimo ajudou-me a perceber o quão as coisas ainda vão mudar e evoluir. E isso é uma coisa boa, eu acho. Começava a ter aquela sensação que já tinha vivido tanta coisa que Milão não me poderia oferecer mais. Que ia ficar viciado em novidade...

Enfim. Um longo testamento sobre Milão às duas da manhã dá sempre origem a problemas pseudo filosóficos. Eu disse pseudo, não atirem pedras!




10 dias depois

29 setembro, 2011

É estranho agora escrever aqui, escrever sobre Milão. Falar sobre o sonho cumprido. Têm sido dias grandes, todos grandes, sempre grandes, sempre cheios de coisas. Por um lado, lembro sempre de Lisboa e das minhas tardes pela Avenida da Liberdade, Baixa e Chiado como ritual sagrado de vivência. 

Já começo a ter saudades, todos os dias, de tudo e de todos. É complicado, principalmente porque não passou muito tempo, mas eu sei que vai passar. Eu sei que os dias se vão transformar em semanas, que as semanas se vão transformar em meses. E a vida não pára para ninguém. Por um lado, adoro a minha nova existência aqui, tão leve, tão cheia de surpresas, tão completamente diferente. Por outro, mata-me o facto de estar a perder tudo, as novas histórias, as novas piadas, os novos romances. Parece impossível por agora, mas eu sei que naturalmente vou perder muitas coisas. E isso mata-me. Nunca tinha pensado nisso, no quanto vou perder dos meus amigos. Aliás tinha pensado, mas não sabia que era possível custar tanto.

Milão é uma cidade linda. Os edifícios são lindos. Andar pela cidade é uma coisa bonita, as coisas estão arranjadas, há qualquer coisa gira para ver em qualquer lado que se olhe. É uma cidade com história, mais clássica que moderna, mas que não deixa de ter todos os confortos de uma cidade cosmopolita. A Moda é realmente qualquer coisa interessante, tenho visto pessoas lindas, com estilos lindos, lojas lindas com coisas lindas e pena, pena é não andar com 40 000 euros no bolso.

Sim, porque é uma cidade cara. Bem cara. Bem mais cara que Lisboa. Em tudo. Nas compras, na comida, nos transportes, nos cigarros. Sair à noite é uma coisa interessante, pedem-nos 250 euros para uma mesa por algumas horas, ou fazem-nos esperar numa fila enquanto deixam as senhoras de malas Chanel e os rapazes com camisas bonitas da Ralph Lauren entrar primeiro. Um cocktail é mesmo 10 euros. Um Martini é considerado Cocktail. Tudo é um cocktail menos uma cerveja. Tudo caríssimo, tudo cheio de estilo.

Ter amigos aqui? É uma coisa estranha. Tenho um grupo porreiro na minha residência, um grupo de espanhóis com pessoas muito interessantes, muito felizes, muito cheias de festa. Mas é impossível não me sentir distante da cultura deles, e fazem-me falta rapazes que como eu, não vivam para o futebol e para o desporto. Faz me conversar sobre música, cultura, filmes, moda. Faz me falta aquele ritmo que eu tinha como meu pessoal português. Mas pelo menos, sinto-me integrado, falo e converso e pode não ser muito, pode não ser profundo, mas pelo menos não estou sozinho.

O meu quarto é uma coisa linda. Duas janelas até ao tecto grandes, uma secretária, uma mesa de cabeceira, tudo bonito, tudo super confortável. A casa de banho tem um padrão xadrez e é aquecida o que eu acho uma coisa fenomenal. Gosto imenso de ver as pessoas no prédio em frente. 

Está tudo a correr bem, mas continuo a querer mais, a desejar mais.
 Este erasmus só começou agora...

Aos 19 anos, dia 19 de Setembro às 19 horas

19 setembro, 2011

Vou-me embora.
E a ansiedade mata...
Amanhã por esta hora, Milão é a minha casa.

Clube das Barbies (?)

14 setembro, 2011

E fui, de autocarro, com o coração nas mãos. Não percebo, agora, o porquê mas naquela hora era como se fosse visitar uma memória, uma memória quase que perdida, obscura, um ideal de coisa que já nada tem a ver com a coisa em si mesma mas ao qual me agarrei durante tanto tempo como faço com tudo. Parecia quase que um jogo, um ambiente desconhecido, pessoas estranhas, passos dados em busca de algo longínquo, a expectativa a sugar-me a concentração.
"é por ali, mais adiante" "Ao pé da igreja" "está quase lá é mesmo já aqui".
Cheguei e fiquei por ali, sem saber se entrava ou esperava mas destino deu-me uma pequena ajuda como sempre e empurrou-me para frente.
Vi-o primeiro a ele. Se só olhar para ele, o tempo não passou - as roupas é que se actualizaram e ainda vamos almoçar ali na cantina e o Pimenta ainda é o Inimigo Público 1 e vamos
chorar de rir enquanto vamos para a baixa.
Mas quando olho para nós, para o ambiente, para a vida e para as pessoas... entendo que sim, tudo mudou e há passos irrecuperáveis, histórias que não voltam para trás e mundos que se perderam.
Depois olhei para ele. Era o fim, a despedida, o sorriso de uma tarefa bem feita. O choque do real não bateu, aliás naquela hora senti-me mais seguro e confiante. Mas
ainda assim, era estranho.
O apresentar, o falar, o conviver, estar ali com eles e pensar que mudei, mudaste,
mudámos e que a vida avançou.
(...)
E se eu tivesse ficado cá?
E se neste momento, fosse velho conhecido e não tivesse vícios de Lisboa,
não conhecesse aquela, a outra, o fulano de tal?
Como seria a vida aqui neste sítio sem mudanças,
ou pelo menos sem grandes acontecimentos e com o mesmo sabor
a nada?
O que seria eu hoje sem Lisboa?
E se estudasse contigo? E se tivéssemos a mesma vida de antes
sem alguns personagens?
Havíamos de rir do mesmo e discutir pelo mesmo, bem sei.
E quando o tivesses conhecido, eu teria acompanhado tudo...
(...)
As aventuras acabam sempre nos transportes públicos, claro está.
Pelo menos ainda guardamos esse traço de adolescência, de juventude,
não temos a pomposidade de um carro novo nosso e somos escravos
de horários, de bilhetes com fita-cola, de "Picas" zangados
e dos lugares que sobram.
No fim foi agradável ver que muita coisa pode ter mudado,
melhorado e desenvolvido, mas o nosso espírito é o mesmo.
Acabei por chegar à conclusão que foste das pessoas que mais me deu na vida,
ensinaste-me a não t(r)emer,
ensinaste-me a gostar de ser único,
ensinaste-me a cultivar a coragem,
ensinaste-me a defender-me,
(mesmo que ás vezes até fosse de ti)
ensinaste-me a andar como se fosse o rei do mundo
(e a dizer gtfo).
Obrigado por tudo, Sê feliz.
Mereces bitch.




Como é que isto continua a fazer tanto sentido? Escrevi isto há alguns meses atrás e encontrei agora. O sentimento continua aqui. Obrigado Perpétuo. 


Os últimos dias

O meu quarto de pantanas, com a mala vermelha aberta no chão, três mil papéis desmaiados por todo o lado qual rosas murchas. Uma sensação de partida. Um adeus próximo. O vento que me bate no corpo do ventilador e Clair de Lune a fazer-me chorar.
Sim, vou-me embora. O meu quarto de tantos anos, as minhas coisas de tantos anos parecem já sentir a minha falta. Deixo esta casa e e este país, mas não iguais a como os encontrei. Tantas lágrimas derramadas aqui, tantos suspiros e amores, tantos sonhos, meu deus. Tantos sonhos.
Setembro chegou e estou outra vez de partida. Vou à conquista de um lugar novo, de pessoas novas, aventuras e memórias. Vou em busca de um álbum de fotografias lindas. Vou em busca talvez de um amor, de uma aventura em Milão. Vou em busca de algo que me faça renascer. Sou uma fénix doente e preciso de me incendiar e renascer das minhas cinzas, como sempre o fiz na realidade.
Dúvidas levo-as a todas no peito carregadas de medo.
Lembranças também. As pessoas, as minhas pessoas, levo-as cravadas na pele, no sangue, por todo o meu corpo como uma marca que não sai.
Resta-me só pedir um bocado de sorte e uns trocos para um ou dois copos.

Dias destes quem os quer?

10 setembro, 2011

Pressão.
Sufoco. 
Dias muito bons que vêm dar a uns muito maus.
A vida não é fácil. Não sei o que fazer aos quilos de coisas que ainda guardo em Sacavém. Não sei o que fazer aos quilos de memórias. Não sei o que pensar. Para Milão está tudo certo. A passagem, a estadia, as coisas da faculdade. Mas em Portugal ainda há coisas pendentes. A vida não é fácil.
Tenho que tratar do crédito ainda. Isso vai ser a loucura. Não faço a menor ideia se o banco no algarve vai saber o que fazer, visto que por lá Erasmus ainda é uma miragem. A minha máquina fotográfica que já tenho há  dois anos estragou-se hoje depois de longo tempo sem a usar. A vida não é fácil