Preciso de apagar

17 junho, 2014

Lembrei me hoje da minha mãe. A minha mãe sempre foi uma pessoa ansiosa. Uma pessoa incapaz de lidar com o mundo à sua volta, que inventa fantasmas atrás das portas para não ter que as abrir.
Dizia-me muitas vezes:
-Estou cansada, preciso de apagar.
-Doem me os dentes, preciso de apagar.
-Tive um dia mau, preciso de apagar.

E apagava. Apagava horas a fio, presa a cama. A minha mãe nunca foi uma adulta feliz. E eu sempre detestei isso nela.

Agora a minha mãe sou eu.

Glasgow Effect

25 maio, 2014

Comprei uma refeição com o meu cartāo de débito. O meu quarto está verdadeiramente uma miséria. A minha casa está uma merda.
Vida Moderna.

Um dia infinito em Londres

20 maio, 2014

Um dia vi um filme com uma teoria interessante. Diziam que a vida depois da morte era sempre céu e que cada um tinha o seu próprio pedaço de paz.
Nunca mais me abandonou esse sentimento, essa ideia que depois de tudo poderia gozar a não existência da forma que quisesse.
Nessa altura lembrei que gostaria que o meu espaço fosse um parque. Um daqueles onde as horas não passam, as crianças brincam no jardim, alguém vende pipocas e o amanhã interessa pouco. Gosto desse sentimento de inocência ao sol. Uma magia que poucos se apercebem e todos gozam a certa altura.

Ganhei uma nova ideia neste fim de semana. O meu céu hoje seria um dia ao sol infinito em Londres. Estou a usar aqueles sapatos que o João encontrou, sinto me bonito, sinto me em paz. As pessoas andam à nossa volta anonimamente, mas faço parte da vida delas, como elas fazem da minha. Há coisas a acontecer,  o Big Ben toca ao longe e consigo ver os arranha céus estendidos com quem quer tocar no dedo de Deus.

A vida à minha volta, parada no tempo. Os autocarros vermelhos andam. Os carros andam no lado contrário da estrada. As pessoas têm pressa. Mas a minha vida está parada e eu sinto-me bem. Não há nada mais à volta. Mando alguns postais, mando sempre. como se por mandar os postais as pessoas estivessem comigo.

Bebo uma bica. É inglesa... mas não importa.
Este é o meu céu.

Ferramentas

19 maio, 2014

Acho sempre que quando vieram as ferramentas vem a vontade, a criatividade, a magia. Acho sempre que miraculosamente vou ter mais tempo, mais energia. Nunca acontece. Nāo se vai longe sem um martelo, mas ter um nāo significa ser construtor.

Help, I'm alive

28 abril, 2014

O abandono deste espaço magoa-me. Magoa-me não escrever nada, magoa-me não ter tempo para nada. Magoa-me o esquecimento.
Mais do que tudo, continua a magoar-me estar vivo, andar aqui a aprender, a ver onde as coisas vão. Viver todos os dias para a semana seguinte, para o pagamento seguinte, para a amizade seguinte.
A minha vida...que vida?
No meio de tudo, não me consigo arrepender de nada. Talvez essa seja a chatice, se eu quisesse mudar as coisas talvez fosse mais fácil.
Não sei o que vou fazer, continuo igual e continuo a sentir-me indignado com a minha sorte familiar. A minha mãe continua a tentar envolver-me na sua espiral de loucura e o meu pai sempre ausente, sempre distante, como se fosse sempre uma miragem no meio do deserto. Nenhum deles me ajuda, talvez a culpa seja minha. Mas como pode ser culpa minha que estejam os dois no desemprego? Como pode ser culpa minha que quase já na idade da reforma a minha mãe não consiga pagar as contas? Não consigo ser auto-suficiente e não consigo ser suficiente para a minha mãe.
O que fazer, meu deus, o que fazer?
Viver para os próximos tempos,  é a única resposta fácil.

Berlim

17 janeiro, 2014

Estou em Berlim e é um bom início de ano.
Continuo sem dinheiro, sem emprego, a viver precariamente.
Continua a ser um desafio, continua a ser uma merda, a vida não melhorou para ninguém.
Mas estou em Berlim. E estou bem.

Nunca vou morar em Nova Iorque

03 janeiro, 2014

Crescer é algo repentino. De repente, percebes as tuas reais capacidades e aquilo que realmente é mais provável de acontecer na tua vida. Finalmente percebeste que és mais um num rio de pessoas e que as coisas importantes da vida envolvem pagar a renda da casa e ter dinheiro para comer. A vida é básica.
De repente percebeste que nunca vais morar em Nova Iorque num estúdio pequenino. Nunca terás dinheiro para isso. Nunca irás comer o pequeno almoço com os teus amigos no café.
Crescer é triste.
Mas acontece.